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Cinema LGBTQIA+

Atualizado: Jul 13

Junho é o mês do Orgulho LGBTQIA+ no Brasil e no mundo. A sigla significa: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Queer, Intersexo, Assexual e o + para incluir as outras formas de gênero e sexualidade. O cinema está presente para todos e não poderia faltar para o público LGBTQIA+. Por isso, a conversa a seguir com o professor Flávio Reis, 31, irá explorar melhor sobre o assunto no meio da arte cinematográfica.

Flávio Reis

Um clássico

Isabely: Flávio, estamos no mês do Orgulho LGBTQIA+ e não podíamos deixar de fora o cinema. Quando eu era criança, lembro que ouvia as pessoas falando do filme O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain), lançado em 2006. Porém, quando ouvia os adultos falarem do filme, alguns diziam que gostavam, mas falavam como se fosse algo proibido, além de não me explicarem o que tinha o tal filme, só me diziam que não era filme para criança. Esse ano assisti ao famoso filme que tanto falavam e, ao assistir, me apaixonei pelo filme, mas penso que há alguns anos atrás, quando foi lançado, deve ter sido um choque para algumas pessoas, que não estavam acostumadas a assistir um filme onde dois homens, cowboys, se apaixonam e, quando ocorre a primeira relação sexual deles, ser algo, ao meu ver, agressivo, pois é como se eles mesmos não aceitassem aquilo, o que eles eram.

Qual a sua opinião sobre esse filme, que descobri recentemente, ser um clássico da cultura LGBTQIA+? E qual a sua visão sobre os filmes do mesmo gênero que foram aparecendo ao longo dos anos? Como Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight) de 2017, Carol de 2016 e Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name) de 2018.


Cena do filme O Segredo de Brokeback Mountain, 2006 Fonte: www.adorocinema.com

Flávio: Sobre O Segredo de Brokeback Mountain, eu gosto bastante. Acho que é uma obra muito importante e que abriu algumas portas para discussão sobre o tema, principalmente por ter sido um dos filmes hollywoodianos que tem como temática a questão homossexual masculina mais premiados da história. Ele abriu portas no sentido de escancarar o modo violento como as masculinidades são construídas. E isso tudo dentro de uma narrativa romântica melodramática clássica, o que ajudou a conquistar o público heterossexual. Nesse sentido, a ponte que ele construiu foi importantíssima e abriu caminhos para que Moonlight, por exemplo, ganhasse o prêmio máximo de Hollywood. Entretanto, essa ponte foi apenas para a premiação, uma vez que Moonlight não teve o mesmo sucesso de público como Brokeback Mountain - arrisco a dizer que, por conta da temática, enquanto um estava dialogando mais com um público heterossexual, o outro estava focado em questões de raça e classe.

As questões LGBTQIA+ no cinema de massas está muito ligada ainda apenas ao G da sigla. Há uma invisibilidade lésbica, bissexual e transsexual muito grande. Os bissexuais no cinema mainstream contemporâneo são geralmente femininos e ultra sexualizados. A transsexualidade é ainda um tabu e, quando é representada, vem de uma forma completamente caricata e problemática, como por exemplo A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl) de 2016. Já as lésbicas têm uma porcentagem maior de representatividade, porém muito longe ainda do espaço dedicado aos gays masculinos. Mas ainda assim, quando representadas, são geralmente vistas pelo olhar masculino e sexualizado - vide a grande discussão gerada com as cenas de sexo de Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2) de 2013 que, apesar de não ser norte americano, fez um enorme sucesso de público e crítica. As discussões e polêmicas sobre as cenas envolviam desde a fetichização do corpo lésbico (excesso de closes, semelhantes a um filme pornográfico) a abusos cometidos com as atrizes durante as gravações. Nesse sentido, um cinema alternativo ao ciclo hollywoodiano se faz necessário para encontrarmos representações mais interessantes.


Cena do filme Azul é a Cor Mais Quente, 2013 Fonte: www.adorocinema.com

Partindo para o nacional

Isabely: Nesse ponto que você citou sobre a ultra sexualização das mulheres, consegui perceber isso no filme A Criada (Agassi) de 2017, onde a nobre era usada para contar histórias eróticas para um público masculino elitizado. Já nas cenas onde as duas protagonistas tinham relações sexuais, partia para além da erotização, ao que remete à filmes pornográficos, pois não era só uma cena de sexo entre duas mulheres, mas se tornou a cena de sexo lésbico estereotipada, fazendo ponte com as cenas onde a nobre contava histórias eróticas aos homens nobres.

Agora, partindo sobre a mesma temática, mas no âmbito nacional. No filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho de 2014, conta sobre a descoberta sexual de um garoto cego, mas por ser um filme com temática adolescente, penso que conseguiram falar do assunto, mas com leveza. O filme Minha Mãe É Uma Peça 3 de 2019, já traz uma narrativa que começou com o primeiro filme, onde um dos filhos se assume gay e, no terceiro, mostra o casamento dele com o namorado do primeiro filme. Penso que também traz a temática com leveza, além de ser um filme com categoria família. O que me pergunto é que talvez esteja faltando algo nesses filmes, como que só falar e mostrar o assunto não fosse suficiente, mas precisa ter um outro modo, uma outra abordagem de falar sobre a temática, pois o que vemos e ouvimos de quem é LGBTQIA+ não denota, em muitos casos, essa leveza apresentada. Então, qual a sua opinião sobre o cinema LBGTQIA+ nacional?

Cena do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014 Fonte: www.adorocinema.com

Flávio: Para mim, a questão não é nem a leveza em si. Podem e devem haver histórias tristes e trágicas. A grande problemática é a forma como elas são apresentadas e aí envolve toda uma questão que vai além da narrativa. São escolhas de elenco, enquadramentos, maneiras de olhar para as histórias. No cinema contemporâneo fora do eixo hollywoodiano, existe uma gama de filmes que trazem representações de LGBTQIA+ de formas muito diferentes e fora do padrão narrativo do coming out. Um grande exemplo que sempre gosto de citar é o dramático Felizes Juntos (Chun gwong cha sit) de 1998, do diretor chinês Wong Kar Wai. Apesar de extremamente triste, Kar Wai tem escolhas estéticas que fazem com que as representações homossexuais masculinas sejam o oposto dos estereótipos hollywoodianos.

Já o cinema brasileiro (e latino americano) também tem esse movimento bem interessante de mostrar um outro olhar, para além das representações clássicas que o cinema norte-americano definiu como modelo. Um dos meus cineastas favoritos é o cearense Karim Aïnouz, que possui uma sensibilidade ímpar ao trazer personagens homossexuais em seu cinema, mesmo essa não sendo a narrativa principal. Assim, a própria noção de "cinema LGBTQIA+" cai por terra, ou seja, existem dramas sobre pessoas, independentemente de sua orientação sexual e gênero. Como é o caso dos filmes Madame Satã de 2002, O Céu de Suely de 2006, Praia do Futuro de 2014; todos esses de Aïnouz, que trazem como seus personagens principais LGBT's ou algum coadjuvante com essa característica. Porém, o foco narrativo não gira em torno da sexualidade (com exceção, talvez, de Madame Satã).

Cena do filme Madame Satã, 2002 Fonte: 43.mostra.org/br

O cinema brasileiro é muito rico e cada vez mais tem trazido diversidade para as telas. O que é preciso é que nós, como espectadores, precisamos descolonizar o nosso olhar e atentarmos mais para os cinemas que são o oposto do que as narrativas hegemônicas trazem. De início, para além dos citados acima, indico os brasileiros Bixa Travesty de 2019 (de Claudia Priscilla e Kiko Goifman), Corpo Elétrico de 2017 (de Marcelo Caetano), A Seita de 2015 (de André Antônio) e os internacionais Tangerine de 2016 (de Sean Baker), Weekend de 2012 (de Andrew Haigh), Bubble (Ha-Buah) de 2006 (de Eytan Fox) e O Quarto de Leo (El Cuarto de Leo) de 2009 (de Enrique Buchichio).


Autor:

Isabely Pignonato

Jornalista e Roteirista

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